Falcão Peregrino na National Geographic Brasil

 

Quando alguém menciona as fotos da National Geographic logo imaginamos um lugar distante e exótico.  Fotos feitas em rios infestados de piranhas e jacarés, mergulhando em uma caverna submersa, no alto de montanhas ou dentro de densas florestas. Mas a foto do falcão-peregrino que ilustra uma nota na National Geographic Brasil de fevereiro/2011 eu fiz da janela da minha casa. Ou quase isso…

Desde outubro de 2010 um falcão-peregrino (Falco peregrinus) utiliza o topo do de um prédio vizinho ao meu como um ponto de caça. O falcão-peregrino é uma ave migratória que passa o nosso inverno no hemisfério norte, onde se reproduz. Durante o nosso verão ela migra para o hemisfério sul, onde parece ter se adaptado muito bem a vida nas cidades.

Durante várias oportunidades pude observar a ave se alimentando, voando, brigando, defendendo seu território ou mesmo quieta, observando com atenção a vida da cidade ao redor. Por predar e abater outras aves em vôo, depois de várias semanas de convivência eu já achava que o falcão era o terror dos céus da vizinhança. Quando surgiu a oportunidade da foto ser publicada pela National Geographic Brasil, achei que deveria fazer uma foto fora do lugar-comum. Minha idéia era mostrar o falcão em seu habitat adaptado: a cidade de Curitiba. Com uma câmera remota apontando para o lugar onde as vezes ele pousava, eu poderia fazer uma foto dele e a cidade atrás. O que provou-se não ser uma tarefa fácil. Primeiro eu teria que ter a permissão de instalar a câmera no topo do prédio. Depois, poder disparar a câmera a quase 70 metros que separavam o meu apartamento e o falcão. Além disso haviam várias duvidas, tais como qual seriam as condições de luz e como ele reagiria a câmera instalada.

Para controlar a câmera a distancia escolhi usar o WT-4 da Nikon em conjunto com Camera Control Pro 2. Dessa maneira poderia ver o que a câmera estava vendo através do Live View. Com o Camera Control eu poderia mudar as configurações de abertura, velocidade, ISO, alternar entre vídeo e foto. E apertar o obturador no exato momento desejado. Tudo isso à distância, com uma conexão wireless através do meu laptop. Graças a ajuda de uma amiga (obrigado Gabi!) obtive permissão para instalar a câmera no prédio. Durante vários dias o falcão não apareceu ou o tempo não ajudou. As visitas dele ao prédio, que no início de outubro eram regulares, estavam ficando cada vez mais escassas. Mesmo quando ele aparecia, estranhava o objeto montando muito perto de seu ponto habitual, e escolhia por pousar na antena poucos metros acima da câmera. Iam se passando os dias, e ao final de umas das tardes notei que mesmo dando vários mergulhos, ele não tinha conseguido abater nenhuma presa. Achei que ele voltaria ao ponto de caça para tentar abater um presa novamente no dia seguinte bem cedo. As 5:30 da manhã, ainda noite, instalei a câmera no topo do edifício mais uma vez. O sol nasceu por volta das 6:30 e poucos minutos depois o falcão se acomodou na antena acima da câmera. Então, inesperadamente, ele pulou para o parapeito do prédio e andou com muita cautela até o suporte do cabo do para-raio que era seu poleiro habitual. Assim que ele entrou no campo de visão da câmera comecei a gravar o vídeo.  Esperei ele olhar para a câmera para bater a foto. Logo após, ele se assustou com o barulho do obturador e voou, voltando a pousar na antena. Só consegui tirar uma foto.

Mas tinha feito a imagem que eu queria: o falcão olhando diretamente para a câmera, sua plumagem característica em formato de “máscara” no rosto bem visível e a cidade de Curitiba atrás ao nascer do sol.

Abaixo segue o ótimo texto do amigo Fernando Straube que escreveu o artigo para a National Geographic Brasil.

Ilustre visitante

Fernando C.Straube

Até dez anos atrás, o falcão-peregrino era encontrado em Curitiba apenas na periferia da cidade. E isso muito eventualmente, quando a sorte dos observadores de aves ali residentes aparecia no momento certo. Por alguma razão, que os pesquisadores ainda não souberam esclarecer, ele passou a frequentar também o centro da cidade, onde pode ser visto no alto dos edifícios maiores, os quais acabou escolhendo como sua nova morada, ou melhor, seu novo destino de inverno.

Uma vez que vive originalmente em ambientes rochosos e de montanhas, o falcão parece encontrar ali certas semelhanças com seu hábitat natural do Hemisfério Norte, onde constroi ninho de gravetos protegidos pela inacessibilidade das encostas pedregosas. Ali também se alimenta, caçando aves em pleno voo, graças a um sistema eficaz de aerodinâmica, visão e também pela robusta conformação óssea e muscular. Do alto dos prédios, em pleno centro curitibano, espreita os pombos, que abate por meio de manobras de ataque de extrema agilidade e velocidade. É uma situação única, que entre a primavera e verão pode ser vista por qualquer pessoa a partir das janelas dos apartamentos mais altos. Com sorte, é possível vê-lo se alimentando de outros itens que estão à sua disposição na cidade, como morcegos e outras aves – alguma delas muito maiores do que ele.

Olhando de cima ele até se parece com um pombo, mas logo pode ser diferenciado pela silhueta, tamanho e, claro, pela velocidade de voo. Sua coloração é quase totalmente cinzenta-azulada, esbranquiçada por baixo e, na barriga, pintalgada por manchinhas regulares mais escuras. O que cai à vista, porém, é sua “máscara”, representada por duas áreas negras que descem a partir dos lados da cabeça e que contrastam com o amarelo-vivo ao redor dos olhos e principalmente da “cera” na base do bico. O seu porte esguio é igualmente notável e, a partir de uma visão mais cuidadosa, pode-se perceber que suas asas são bastante longas, característica que favorece os voos ágeis e rápidos.

Mede cerca de 50 centímetros, para mais (no caso das fêmeas – sempre maiores) ou para menos; seu peso, dependendo da hora do dia – o que tem a ver com o fato de estar alimentado ou não – em torno de 1 a 1,5 quilogramas. Trata-se, por assim dizer, de um rapineiro de médio porte que em nada rivaliza com a nossa harpia, ou gavião-real, tida como a maior ave de rapina do mundo e que chega aos consideráveis 2 metros de envergadura de asas. Mas a virtude principal do falcão não é o tamanho e sim a velocidade. Em voo normal, ou voo de cruzeiro, pode chegar a quase 200 km/h e, lançando-se em queda livre para o abate da presa esse valor chega a superar a casa dos 300 km/h.

O meio urbano também lhe oferece outros atrativos. A grande concentração de pombos que se estabelecem em bandos, atraídos por restos de comida, por todas as partes centrais da metrópole é alimento fácil e abundante. Nada mais esperado: um ambiente favorável, com algumas semelhanças com o natural e comida farta, esperando para virar banquete.

O peregrino é um dos exemplos de ave cosmopolita. Ocorre em todos os continentes da Terra, com exceção apenas das terras geladas da Antártida. Só que ele não se contenta com uma vida sedentária e rotineira: além de ser conhecido como o animal mais veloz do mundo, faz migrações extensas, quando o inverno do Hemisfério Norte começa a se tornar mais rigoroso. No Brasil está presente entre os meses de outubro e abril mas há indícios de alguns que por aqui se estabeleceram até mesmo no inverno e, possivelmente, também estejam se reproduzindo. Em Curitiba, de fato, já foi visto em pleno mês de julho, no frio invernal tipicamente chuvoso da capital paranaense. Quem sabe não tenha escolhido a cidade como sua morada definitiva?

Para cumprirem sua longa viagem, de mais de 20 mil quilômetros entre o Canadá e a Terra do Fogo, partem da América do Norte no outono setentrional, quando lá começa a esfriar e aqui a primavera está começando. De lá optam por uma das duas rotas conhecidas: ou seguem pelo interior do Brasil, passando pela Amazônia e Brasil Central ou escolhem o caminho litorâneo, a partir do Golfo do México. Ao longo do itinerário vão fazendo escalas para se alimentar e descansar e é exatamente nesses momentos que pode ser visto pelos observadores mais atentos.

Apesar de serem aves de extrema beleza e representantes de um extremo de adaptação de voo, os falcões-peregrinos ainda sofrem muito com as intervenções humanas. Um dos principais problemas é o uso de pesticidas organoclorados que, passam da fonte para os animais que ele come. Com isso, acaba envenenado indiretamente ou, ainda, passa a produzir ovos frágeis, em virtude dos processos químicos dessas substâncias, que reduzem a resistência das cascas. Outro problema é a captura para cativeiro, uma vez que é peça de grande interesse na prática milenar de falcoaria. Embora essa prática seja regularizada e, em geral, realizada sob critérios mínimos, ainda existem coletores que descobrem seus ninhos e retiram ovos e filhotes, reduzindo sensivelmente a quantidade de animais livres na natureza.

Por sua grande voracidade, o peregrino também é perseguido por produtores de aves, inclusive criadores de pombos, que o abatem a tiros. Em muitos locais da Europa, por exemplo, ele encontra-se extinto, em virtude desse tipo de ação.

A cidade de Curitiba ficou conhecida recentemente como um dos centros urbanos mais ricos em espécies de aves em todo o mundo. Estudos recentes mostraram que ali vivem quase 400 tipos de pássaros, dando-lhe o título – além de Capital Ecológica do Brasil – de “cidade das aves”. Tal característica deve-se principalmente ao grande cinturão verde que a contorna, mas também a hábitats naturais ainda preservados nos seus parques e praças, à consciência de conservação da população e mesmo pela presença de ambientes inusitados como aquele, cheio de arranha-céus, que é da preferência de nosso ilustre visitante. Se depender da hospitalidade e do viajante, tudo indica que a cidade estará definitivamente firmada como destino. Afinal, os peregrinos, além de velozes, são muito fieis aos seus pontos de invernada, repetindo-os ano após ano, desde que sejam bem-recebidos.

Por alguma razão, que os pesquisadores ainda não souberam esclarecer, o falcão-peregrino (Falco peregrinus) passou a frequentar também o centro das cidades, onde pode ser visto no alto dos edifícios maiores, os quais acabou escolhendo como sua nova morada, ou melhor, seu novo destino de inverno. Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF + TC-20e III.

Falcão-peregrino (Falco peregrinus) observa o movimento do início da noite em Curitiba. Nikon D3x, Nikon AF-S Nikkor 70-200mm f/2.8G ED VR II

Ao lançar-se em queda livre para o abate da presa a velocidade do falcão-peregrino (Falco peregrinus) pode superar a casa dos 300 km/h, fazendo dele o animal mais veloz do mundo. Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

As disputas por território com um quiriquiri (Falco sparverius) eram frequentes. Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

E a guerra continuava nos céus de Curitiba. Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

Falcão-peregrino (Falco peregrinus) e quiriquiri (Falco sparverius). Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

Olhando de cima ele até se parece com um pombo, mas logo pode ser diferenciado pela silhueta, tamanho e, claro, pela velocidade de voo. Sua coloração é quase totalmente cinzenta-azulada, esbranquiçada por baixo e, na barriga, pintalgada por manchinhas regulares mais escuras. O que cai à vista, porém, é sua “máscara”, representada por duas áreas negras que descem a partir dos lados da cabeça e que contrastam com o amarelo-vivo ao redor dos olhos e principalmente da “cera” na base do bico.Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF + TC-20e III.

O seu porte esguio é igualmente notável e, a partir de uma visão mais cuidadosa, pode-se perceber que suas asas são bastante longas, característica que favorece os voos ágeis e rápidos. Nikon D7000, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

O exato momento da foto abaixo. A D7000 montada na antena disparou a D3x que estava do outro lado da rua, previamente apontanda para a cena. Nikon D3x, Nikon 600mm f/4G ED VR AF

Enfim a imagem que eu queria: o falcão olhando diretamente para a câmera, sua plumagem característica em formato de “máscara” no rosto bem visível e a cidade de Curitiba atrás ao nascer do sol. Nikon D7000, Nikon AF-S Zoom 14-24mm f/2.8G ED, Nikon WT-4, Nikon Camera Control Pro 2

 
 
 
 

22 Comments

 
  1. Claudio Nogueira disse:

    Show Krause, cada vez mais essas imagens nós mostram que tudo é possível pra se conseguir uma boa foto!!!

    Abraços,

    Claudio “Kozo”

  2. Seli disse:

    Vizinho,

    Parabéns pelo talento, ousadia e disposição.
    Quando quiser fotografar uma família de urubus e só mirar a camera para o telhado do meu prédio.
    bjs
    Selita

  3. Reni disse:

    Fantástico relato e registros, Marcelo! Parabéns! Sou louco para ver esta ave.

    Abs!

  4. Cláudio SM Oliveira disse:

    Parabéns pelo excelente trabalho!

  5. Hildegardo disse:

    Parabéns Marcelo,

    Muito bom seu esforço, quando a gente quer a gente consegue, obrigado por compartilhar conosco seu feito,
    eu tb, fui agraciado com a vizita de um Falcão Peregrino, aqui em minha pequena cidade no final de dezembro de 2010 e de vez enquanto ele volta, até poucos dias atraz eu vi ele por aqui, pousado numa das torres de telefonia, onde conseguir fazer alguns vídeo, não muito bons, mas conseguir tb, abçs…

  6. Augusto Valente disse:

    Krause, cada dia que passa aprendo com vc algo novo. O modo como capturou a cena foi pra lá de criativo. Parabéns!!!

  7. Marcelo, excelente cobertura do Peregrino, gostei muito dá utilização do sistema Wireless.
    Parabens.

  8. Daniel Ferreira disse:

    Parabéns, Marcelo! Gostei muito das fotos e da história contada pelo seu amigo. Faz a gente pensar com carinho na necessidade da preservação e traz inspiração para tentarmos também a foto. Abraço grande.

  9. Luciano Bonatti Regalado disse:

    Simplesmente fascinante!!! Parabéns pelas imagens!

  10. Cid Espínola disse:

    Fabulosas imagens!
    Parabéns!

  11. Parabéns Marcelo, excelente trabalho!

  12. Amigos, fico feliz que tenham gostado das fotos e da história.
    O falcão que havia desaparecido em janeiro, voltou a frequentr o prédio esporadicamente, mas agora acompanhado de uma fêmea!!!

  13. Karina Dubeux disse:

    Um belíssimo intervalo de superfície!
    Determinação e Ousadia… Bravo!!!

  14. Rogério disse:

    Nossa, que felicidade morar na cidade também…um orgulho muito grande.
    Parabens pela insistencia, equipamentos usados e tudo mais.
    Um abaraço – Rogério.

  15. Sérgio Coutinho Jr disse:

    Sensacional, muito bom mesmo!! Parabéns pelo trabalho!

  16. Nei Medeiros disse:

    Bom dia Krause,em minhas busca pela foto com personalidade, dei de frente com seu trabalho,parabêns vc realmente gosta do que faz e deixa isso bem claro com seu trabalho,porem na foto do falcão peregrino com a cidade de fundo se vc estivesse utilizado um filtro,para amenizar a entrada de luz,talvez tivesse um melhor efeito,porem sua técnica foi perfeita para captura da foto,seu trabalho tem estilo próprio.
    Nei Medeiros

  17. Que bela história e fotos fantásticas!
    Pela foto percebi que somos visinhos.
    Qualquer hora apareço aí pra ver esse gavião de perto.
    Grande abraço e parabéns pelas belas fotos!
    João Adalberto

  18. Parabéns. Belissímo trabalho.

  19. Soraya disse:

    Boa noite Krause. Hoje, a poucos minutos ao chegar em casa deparei com o falcão no parapeito da janela. Achei que era um pombo. Meu filho garantiu que não. Tirei fotos e fiz 2 filmes pequenos, sou amadora em tirar fotos. Resolvi procurar no google como gavião. Porém ao colocar gavião da cidade de curitiba apareceu a foto do Falcao Peregrino. Fique encantada com o que você escreveu e as fotos. Gostaria que vc desse uma olhada nas fotos que eu tirei para confirmar se é o mesmo.
    até,
    Soraya

  20. Oi Soraya. Esse ano já vi ele várias vezes em Curitiba. Se puder me mande um link ou as fotos por e-mail. Abraços

  21. HIDEKO disse:

    Parabéns pela excelente matéria.
    E assim, vou ampliando meus conhecimentos.
    Adorei as fotos.
    Hideko

  22. lígia moneta disse:

    Marcelo, nunca tinha visto fotos do falcão peregrino nas cidades, mas ontem comecei a procurar informações porque um deles simplesmente entrou no banheiro do meu apartamento (17° andar)e pousou sobre o blindex do box. Fiquei tão encantada (e assustada, confesso) que não me lembrei de fotografar. Mas era lindo, obrigada pelas fotos, só assim pude identificar meu falcão.

 

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